Lacombe Lucien, de Louis Malle (1974)
Ah, a vida secreta de cada um. Ao sabor dos acontecimentos, a vida vai indo, levando, virando… Não se resiste ao apelo da repressão, não se resiste aos apelos de um amor… ainda que judeu. (E os abusos de poder, agora, em nome de uma oprimida! O amor, afinal, é cego à lógica binária da exclusão.) Mas eis que a tese do filme enuncia-se tão logo o filme começa: a violência, despropositada, fora do registro da pura sobrevivência, em relação à natureza. Aparentemente contraditória a todo o resto do desenrolar, mas talvez, só talvez, com um pouco de sutileza e manha, absolutamente complementares.
O triunfo da vontade e Olympia, de Leni Riefenstahl (1935 e 1938)
Desses casos, muito menos raros do que gostaríamos, suponho eu: a beleza, o senso estético, a maestria técnica… A genialidade, enfim, condensada em uns tantos minutos de… arte? Ou propaganda? E propaganda nazista, ainda por cima, porque a vida é feita de extremos, que teimam em borrar a sutileza dos detalhes e obnubilar o pensamento. O nazismo, esse a diretora, sempre, sempre, renegou, e foi-se a fazer documentários do mundo subaquático e das mazelas africanas. Será, afinal, que o “não” duro do autor justifica um punhado de história? A beleza da arte em sua dimensão mais terrorificamente bela, eis um legado inequívoco de Riefenstahl. Ou, então, a violência da arte, contradizendo Dostoiévski: será que a beleza pode salvar alguma coisa?
A onda, de Dennis Gansel (2008)
Filme da Alemanha, retrato de um país reunificado cujos melindres históricos continuam vivos, queiramos ou não. A história, no entanto, acontece factualmente nos Estados Unidos. (Quanto dessa mudança de lugares deu e tirou da força do filme? Pois que o fascismo, não importa onde grasse, é peste a ser combatida…) Os limites dos experimentos sociológicos (quiçá sociais), a violência de toda educação, os limites dessa educação contra a barbárie, os limites da dúvida. Para que é que aponta o filme? Para tudo isso e um pouco mais? Aponta, talvez, para a potência do fascismo, ainda hoje, depois de tanta história. Aponta, talvez, para o demasiado humano que se vê em cada cena. Aponta, talvez, para um final esperado, desesperançado, mas sempre surpreendente em sua crueza, essa ressaca que a realidade produz, sempre e mais. O mais assustador em A queda (de Oliver Hirschbiegel, 2004), afinal, não é homem por trás do nome?