Faz algum tempo esteve em cartaz a peça de estréia de Contardo Calligaris. Suas colunas semanais são, via de regra, ótimas. Não me animei a ler seu primeiro romance e, contrariando muitas opiniões desfavoráveis de gente que prezo, fui ver a tal peça – “O homem da tarja preta”. Acontece que gostei. Uma peça de iniciante, sem dúvidas. De um psicanalista e não de um dramaturgo, sem dúvidas. Precisa de psicanálise para ser entendida? Não, eu prefiro apostar que não. (Qual seria o ponto de escrever uma peça para psicanalistas, e somente psicanalistas?)
A peça trata do homem “moderno” e de suas fantasias. (Só falarmos de modernidade já é algo conceitualmente complicado, convenhamos.) Talvez seja preferível falarmos de homem contemporâneo – mas, de todo modo, de um homem de determinada sociedade, de determinado tempo, quiçá da cidade e não do campo, quiçá cidadão de uma grande cidade e não do interior, quem sabe habitante de uma democracia e não de uma ditadura. Talvez o homem psicanalisável, portanto, mas isso pode querer dizer mais da psicanálise do que sobre o homem.
Mas não se trata apenas do homem, apesar de ele, e ele apenas, estar em cena – a peça é um monólogo. Pela ausência, pelo complementar, pela inversão põe-se em questão, também, a mulher. Mais: o próprio enredo – acompanhar a noite fantasiosa de um homem, seus segredos e desejos íntimo – dá forma à questão. As fantasias precisam ser escondidas, ocultadas e apagadas. Obnubila-se o desejo. O que se passa para que não possa haver compartilhamento e que o imperativo – vejamos com cuidado, o imperativo e não a liberdade – de desejar tenha virado algo como “deseje, mas escondido”?
A peça é um monólogo, dissemos. É exatamente isso: não há mais conversa – e conversas podem ser reveladoras. Falamos sozinhos o tempo todo: ainda que entre ouvir e não ouvir haja uma grande distância, às vezes é mais fácil se colocar no lugar de não ouvir (e também pode ser mais fácil se colocar no lugar do não falar, claro). Dizermos para nós mesmos que saber o que desejamos pode assustar (e saber o que a realidade pode nos dar também, mas em outro sentido), como mostra a peça. Ouvir o que o outro deseja pode, mais ainda, colocar nosso próprio desejo em xeque. Se descobrirmos que o outro quer Kibon, mas nós queremos Nestlé, há solução: Häagen-Dasz. Mas pode ser esmagador descobrir que o outro sempre quis casar com um moreno e você é loiro, ou que ele de fato não gosta de fazer sexo como você gosta. Descobrir que os desejos se desencontram como regra e não exceção não facilita compartilhar as coisas, é certo.
Foi-se o tempo em que desejo tinha hora e lugar definidos por uma divisão arbitrária (o que não exclui a idéia de determinação social) dos papéis de gênero. É quase inegável que esse esgarçamento de limites é positivo. O esgarçamento trouxe, consigo, o embaçamento dos desejos e dos ideais – também pode ser positivo se desvincular disso e prezar por uma livre constituição do sujeito, mas só se desconsiderarmos que isso é impossível. Só acontece de, por agora, a gente não ter norte nenhum. (Nesse ponto, o feminismo que é o avesso do machismo só deixa tudo mais tortuoso, posto que não libera nada: ordena outro caminho.) Eis aí um cenário perfeito para um monólogo: homem ou mulher, já não há papel nenhum definido. Como é que se deseja assim?: uma pergunta capciosa.