Escrita

08/09/2011

Será que entre os anjos
houvesse quem teria

pena?

Ode a Machado de Assis

06/02/2011

De certo dicionário machadiano:

  • CAPITURAR

Verbo transitivo, direto e indireto, normalmente irresistível. O objeto, via de regra, sente-se oblíquo. Quando na condição de direto, declina-se, mesmo que não haja casos no português de Machado. O sujeito normalmente é um par de olhos, ciganos ou não, brasileiros ou não, capitolinos ou não. Por vezes acham-se à beira mar, em dias de ressaca.

  • CAPITULAR

Verbo reflexivo, assujeitado – nem direto, nem direto: imposto. Conjugando-se no imperativo, perde-se a realidade; conjungando-se no subjuntivo, abunda a imaginação, mar mexido que é. Desvela, pelo avesso, a impostura amorosa que é se perder no alheio, no alhures e no antanho.

Moratoria afetiva

28/12/2010

Deveria ser a consequência lógica do postulado de uma economia libidinal – com direito a posse dos meios de produção e revolta sindical do ego.

Magritte

28/12/2010

Porque a paixão do olhar só parece se constituir quando, ali, discretamente, parece não haver espaço para a transição barroca da moldura – a moldura é a realidade.

Conversações

08/11/2010

“Mãe?”
“Que é…”
“Quero ser poeta.”
“Poetisa, minha filha.”
“Não, mãe, quero ser poeta.”
“Já disse, é poetisa.”
“Mãe?”
“Que é, filha.”
“Por que arte tem gênero?”

Curta-metragens

02/11/2010

Lacombe Lucien, de Louis Malle (1974)

Ah, a vida secreta de cada um. Ao sabor dos acontecimentos, a vida vai indo, levando, virando… Não se resiste ao apelo da repressão, não se resiste aos apelos de um amor… ainda que judeu. (E os abusos de poder, agora, em nome de uma oprimida! O amor, afinal, é cego à lógica binária da exclusão.) Mas eis que a tese do filme enuncia-se tão logo o filme começa: a violência, despropositada, fora do registro da pura sobrevivência, em relação à natureza. Aparentemente contraditória a todo o resto do desenrolar, mas talvez, só talvez, com um pouco de sutileza e manha, absolutamente complementares.

O triunfo da vontade e Olympia, de Leni Riefenstahl (1935 e 1938)

Desses casos, muito menos raros do que gostaríamos, suponho eu: a beleza, o senso estético, a maestria técnica… A genialidade, enfim, condensada em uns tantos minutos de… arte? Ou propaganda? E propaganda nazista, ainda por cima, porque a vida é feita de extremos, que teimam em borrar a sutileza dos detalhes e obnubilar o pensamento. O nazismo, esse a diretora, sempre, sempre, renegou, e foi-se a fazer documentários do mundo subaquático e das mazelas africanas. Será, afinal, que o “não” duro do autor justifica um punhado de história? A beleza da arte em sua dimensão mais terrorificamente bela, eis um legado inequívoco de Riefenstahl. Ou, então, a violência da arte, contradizendo Dostoiévski: será que a beleza pode salvar alguma coisa?

A onda, de Dennis Gansel (2008)

Filme da Alemanha, retrato de um país reunificado cujos melindres históricos continuam vivos, queiramos ou não. A história, no entanto, acontece factualmente nos Estados Unidos. (Quanto dessa mudança de lugares deu e tirou da força do filme? Pois que o fascismo, não importa onde grasse, é peste a ser combatida…) Os limites dos experimentos sociológicos (quiçá sociais), a violência de toda educação, os limites dessa educação contra a barbárie, os limites da dúvida. Para que é que aponta o filme? Para tudo isso e um pouco mais? Aponta, talvez, para a potência do fascismo, ainda hoje, depois de tanta história. Aponta, talvez, para o demasiado humano que se vê em cada cena. Aponta, talvez, para um final esperado, desesperançado, mas sempre surpreendente em sua crueza, essa ressaca que a realidade produz, sempre e mais. O mais assustador em A queda (de Oliver Hirschbiegel, 2004), afinal, não é homem por trás do nome?

Neruda

01/11/2010

Eliécer Neftalí Reyes Basoalto escreveu seu primeiro livro, Crepusculario, aos 17. Escrevia durante o dia e parava para ver o pôr do sol, no meio do mato em que deveria estar. Entre pôres e dias, fez poemas. Por dessas coisas que acontecem com a gente, foi meu primeiro livro de poesia – ganhado, e não comprado. Uma surpresa, acho eu, e com um lindo pôr do sol do Turner – eu que ouço falarem tão pouco dele – na capa. Pouco original, é verdade, mas essa culpa deve ser do editor.

Por dessas coisas que acontecem com a gente, eis que me cai no colo a ocasião para reler Neruda. Crepusculario, ainda por cima, eu que gosto de assistir pôres de sol por conta própria. Por mais uma dessas coisas, eis que descubro uma Antologia General, numa edição bonitinha – e que me fez pensar que todos temos antologias poéticas de pequenos momentos, pequenos detalhes e algumas memórias. Que contemos nossas vidas no fio dessa meada, meada de livros ou poemas.

Os preconceitos do autor

01/11/2010

Na fila para votar, aquele anda e pára e os apitos da urna (quase funerária, para as utopias e para a reflexão, ainda que uma e outra não se dêem as mãos). Sai a senhorinha em fim de voto, voto secreto, voto nulo. Vai a senhora, roupa de ginástica – que, nesses tempos de coligação, faz-se bem necessária, apita aqui, apita lá, a consciência cívica se dá por contente e ganha o comprovante. Diz a senhora para o próximo da fila, senhor, roupas civis, braços cruzados – toma aqui, meu bem, a lista. Corajoso, cioso de sua própria consciência e da boca da urna, retorque – não precisa, não, que eu voto diferente. Voto secreto, voto nulo, entre risadas – que, pobre esposa!, mereciam-nas os candidatos.

* * *

Na última mesa do salão, café e livraria misturados, meio que pegados um no outro, família em fim de tarde. O pai, a mãe, o filho, pequeno, de colo, sem paladar para café e sem gosto pelos livros, quiçá. Nessas inversões de fim de século, bem-vindas e auspiciosas, é a mãe quem lê um livro pesado, calhamaço, livro de quê? Lê compenetrada, distraída para com o filho. A comida chega, a mulher ali, lendo, e o homem se ocupa da comida estando a brincar com a criança.

Festa da democracia

31/10/2010

Eis que, enfim!, chegam ao fim as eleições, a tal festa da democracia, tradição arraigada faz… vinte, vinte e poucos anos, oras, pois! Tanto tempo, tanto mar, quase nada de memória, um tiquinho de farsa. Festa popular, qual baile de máscaras, qual festa à fantasia, nesse país em que sempre é carnaval e, quiçá?, acumulamos – os candidatos? – pecados para o período casto… de exercício da república, quisera eu! Mas não, é de quaresma, mas não, que nada, é carnaval, e carnaval não sobe serra.

Desse pileque homérico do mundo, que já cantou o sambista em momentos melhores – seus, não do país -, Marianne, travestida de democracia – pois que votar, agora, é sinal, puro e simples, de que a república se exerce – no dia em que as bruxas corriam soltas, Marianne, coitada!, sozinha, solitária, em fim de festa, maquiagem borrada e fantasias destroçadas, eis que ela, de porre, a ver estrelas e tucanos, pensava na ressaca. Uma ressaca de mais quatro anos, e mais quatro, e mais quatro…

(Marianne andava a ler Ensaio sobre a lucidez, do comuna Saramago.)

Máquina das saudades

14/10/2010

Ah, essa tal presença…


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