Cartas sobre o quê?

04/11/2009 por Luiz Eduardo

Querida Alya,

Uma última carta, talvez. Últimas cartas não cabem em livros – a bem da verdade, eu diria que não cabem em lugar nenhum. Para minha sorte, posso dizer que últimas cartas também não seguem ordens (ou conselhos), muito menos imposições. Ou seja, Alya, essa é uma carta de amor.

Parece algo presunçoso, não é mesmo? Dir-se-ia que cartas de amor não precisam ser apresentadas como tais, e talvez não precisem mesmo. Todas as mais de trinta cartas que eu escrevi para você provam isso. Todas as mais de trinta cartas que eu escrevi para você não falavam de amor, mas eram de amor. Os sentidos sempre abundam os textos e povoam as entrelinhas.

Por que você, Alya? Eu não sei. Não acho que você saiba. Talvez você nem mesmo saiba porque não eu, mas ainda assim me deixou escrever. Será que sou grato a você por isso? Talvez eu mantivesse uma esperança.

Esta carta é uma carta doída, Alya. Todas foram, ainda que não parecessem a você. Escrever dói em mim, porque eu não sei o motivo de você querer ler. Mas esta foi a última, ainda que a última sempre esteja por ser escrita.

Pina Bausch

04/11/2009 por Luiz Eduardo

Se Adorno tivesse vivido algum tempo mais, Pina estaria em companhia de Brecht e Beckett, tenho certeza. E por quê? Porque ela mostra a impossibilidade de se dizer algo – e dizer isso, hoje em dia, já é dizer muito. Porque a repetição mostra os limites de uma racionalidade burra, repetição essa que atravessa as montagens de começo ao fim, em movimentos, em personagens, em cenas, na estrutura narrativa – ainda que o narrado seja justamente, mais uma vez, a impossibilidade de narrar qualquer coisa. As montagens são como fractais de repetição, que vão se desmanchando e organizando sempre iguais. Pina mostra que a linguagem, sob a forma que estiver (e tudo pode ser linguagem!), resiste à barbárie, resiste à dominação da mesma forma e ao mesmo tempo que é instrumento (quiçá, no limite, o único possível: porque intrínseca ao homem) dessa resistência. Lá onde aponta aquilo que não pode ser nomeado, que escapa à compreensão de tão devastador, a linguagem mostra que ainda pode, sim, mesmo depois de Auschwitz, ser bela. Tanto mais beleza quanto mais dá lugar à impossibilidade de dizer. Tanto mais bela quanto mais impossível. Pina parece reafirmar que não é porque não se pode dizer mais nada que não vale à pena denunciar essa condição: que há para ser dito?

O sentido

04/11/2009 por Luiz Eduardo

O bonito da linguagem é que mesmo lá onde ela não alcança, ela aponta, revolve e traz à tona.

As notícias sobre o improvável são exageradas

03/11/2009 por Luiz Eduardo

“Truth is stranger than fiction, but this is because fiction is obliged to stick to probability; truth is not.” M. Twain

[Uma homenagem no Dia dos Mortos para aquele que deu a melhor resposta sobre os boatos de sua morte: o exagero.]

Distopia

01/11/2009 por Luiz Eduardo

A coisa toda é tão perversa que quem desiste do mundo é quem acredita nele.

A dança

31/10/2009 por Luiz Eduardo

Por entre livros e valsas o pedido sussurrado ao compositor foi uma partitura para ser tocada à quatro mãos.

Sylvia Plath

29/10/2009 por Luiz Eduardo

A voz de Ariel é aquela do poeta que procura sempre dizer a verdade que não podia agüentar. É aquele poema, sempre o último poema!, aquele que não está no livro – nem nunca poderia estar. É daquilo que se fugiu: Ted, te… .

Clava forte

23/10/2009 por Luiz Eduardo

Se a justiça é cega e não surda, o cinismo só pode ser é mudo.

Realidade

21/10/2009 por Luiz Eduardo

Saiu correndo: queria o cabelo, o vento e frio no rosto e nos olhos. Queria agarrar aquilo tudo que, como a neve, parecia não ter tempo de chegar inteiro ao chão. Desmanchar-se. A neve só se detinha por entre os dedos e nos fios escorridos da memória.

Fifties fan

11/10/2009 por Luiz Eduardo

Por entre as fachadas retas e pastilhas em tons pastéis, estava aquilo que pareceu ter sido sempre procurado: Jack Kerouac, Marilyn Monroe e Elvis Presley, com pitadas de Marlon Brando e James Dean – queria a nostalgia do não vivido, nem que fosse em forma de casa.