O pequeno príncipe

02/12/2009 por Luiz Eduardo

“Torna-te eternamente responsável por aqui que cativas”. Eis uma das colocações mais perversas relacionamentos humanos – e, ainda pior, repetida à exaustão. Se querem uma rosa que vão ler Drummond, se querem pastorear ovelhas que vão ler Caeiro. (A culpa pode ser imputada a um certo astrônomo turco, que viu a coisa toda em 1909. Não é que o livro seja ruim – para crianças. Que tipo de filosofia querem tirar daí? Eu preferiria uma filosofia tirada d’”O chapeuzinho vermelho”, mas na versão medieval.)

Claro que pilhérias podem ser feitas às custas de bons textos, de ótimos textos. Os que mais as merecem, no entanto, são os piores. Merecem tanto que a coisa descambou para um post conjunto com um certo bloco. Juramos que ele não caiu junto de um asteróide nem foi desenhado por uma mão fantasma.

Красота спасёт мир

29/11/2009 por Luiz Eduardo

Ah, o design. Como quase tudo que é bom, o bom design passa despercebido. É só pensarmos nas prosaicas canetas Bic, no orelhão, naquele copo de bar. Em pacotes de biscoito Piraquê (com direito à grife de Lygia Pape) e nas embalagens de sardinha Coqueiro (estas de Alexandre Wollner). (A Daniela Name cita também o desenho do calçadão de Copacabana; como defesa paulista cito o desenho de algumas calçadas de aqui, numa abstração geométrica em branco e preto da geografia do estado de São Paulo.)
Vai ver seja o ideal de toda declaração de amor frustrada: não importa a forma ou o conteúdo, que seja esquecida. Que a gente não se dê conta, como nas gôndolas de supermercado. Aos incautos, que fique o aviso: a beleza salvará o mundo.

Moral sexual, doença nervosa desde sempre

29/11/2009 por Luiz Eduardo

Faz algum tempo esteve em cartaz a peça de estréia de Contardo Calligaris. Suas colunas semanais são, via de regra, ótimas. Não me animei a ler seu primeiro  romance e, contrariando muitas opiniões desfavoráveis de gente que prezo, fui ver a tal peça – “O homem da tarja preta”. Acontece que gostei. Uma peça de iniciante, sem dúvidas. De um psicanalista e não de um dramaturgo, sem dúvidas. Precisa de psicanálise para ser entendida? Não, eu prefiro apostar que não. (Qual seria o ponto de escrever uma peça para psicanalistas, e somente psicanalistas?)

A peça trata do homem “moderno” e de suas fantasias. (Só falarmos de modernidade já é algo conceitualmente complicado, convenhamos.) Talvez seja preferível falarmos de  homem contemporâneo – mas, de todo modo, de um homem de determinada sociedade, de determinado tempo, quiçá da cidade e não do campo, quiçá cidadão de uma grande cidade e não do interior, quem sabe habitante de uma democracia e não de uma ditadura. Talvez o homem psicanalisável, portanto, mas isso pode querer dizer mais da psicanálise do que sobre o homem.

Mas não se trata apenas do homem, apesar de ele, e ele apenas, estar em cena – a peça é um monólogo. Pela ausência, pelo complementar, pela inversão põe-se em questão, também, a mulher. Mais: o próprio enredo – acompanhar a noite fantasiosa de um homem, seus segredos e desejos íntimo – dá forma à questão. As fantasias precisam ser escondidas, ocultadas e apagadas. Obnubila-se o desejo. O que se passa para que não possa haver compartilhamento e que o imperativo – vejamos com cuidado, o imperativo e não a liberdade – de desejar tenha virado algo como “deseje, mas escondido”?

A peça é um monólogo, dissemos. É exatamente isso: não há mais conversa – e conversas podem ser reveladoras. Falamos sozinhos o tempo todo: ainda que entre ouvir e não ouvir haja uma grande distância, às vezes é mais fácil se colocar no lugar de não ouvir (e também pode ser mais fácil se colocar no lugar do não falar, claro). Dizermos para nós mesmos que saber o que desejamos pode assustar (e saber o que a realidade pode nos dar também, mas em outro sentido), como mostra a peça. Ouvir o que o outro deseja pode, mais ainda, colocar nosso próprio desejo em xeque. Se descobrirmos que o outro quer Kibon, mas nós queremos Nestlé, há solução: Häagen-Dasz. Mas pode ser esmagador descobrir que o outro sempre quis casar com um moreno e você é loiro, ou que ele de fato não gosta de fazer sexo como você gosta. Descobrir que os desejos se desencontram como regra e não exceção não facilita compartilhar as coisas, é certo.

Foi-se o tempo em que desejo tinha hora e lugar definidos por uma divisão arbitrária (o que não exclui a idéia de determinação social) dos papéis de gênero. É quase inegável que esse esgarçamento de limites é positivo. O esgarçamento trouxe, consigo, o embaçamento dos desejos e dos ideais – também pode ser positivo se desvincular disso e prezar por uma livre constituição do sujeito, mas só se desconsiderarmos que isso é impossível. Só acontece de, por agora, a gente não ter norte nenhum. (Nesse ponto, o feminismo que é o avesso do machismo só deixa tudo mais tortuoso, posto que não libera nada: ordena outro caminho.) Eis aí um cenário perfeito para um monólogo: homem ou mulher, já não há papel nenhum definido. Como é que se deseja assim?: uma pergunta capciosa.

Sinais

28/11/2009 por Luiz Eduardo

Dessas histórias de amor que têm tudo para acabar bem: ele supera todos os problemas – que envolvem só falar com ela por meio de frases escritas em papel sulfite e uma mistura avassaladora de vergonha e medo de rejeição; ela muda de janela e parece abandonar tudo para retornar e dar uma nova chance. Eles se encontram no meio da rua. Tudo acaba bem. Ou, pelo menos, pode acabar bem.

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Mas às vezes as histórias continuam. Como no roteiro da peça que originou “Closer”: o filme acaba com ela atravessando a rua; a peça acaba com ela sendo atropelada. O final do filme não exclui o final do teatro, claro.

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As histórias continuam, às vezes. Por exemplo, o casal parado no meio da rua, sinal para pedestres verde, sinal para carros vermelho – uma linguagem universal. É desses instantes que o mundo pára, mas os carros não: pode ser que um caminhão da FEDEX fure o sinal. A vida não imita a arte, às vezes.

Opúsculo

28/11/2009 por Luiz Eduardo

Ainda que se corra o risco de procurar algo onde não há nada, admito, pensemos sobre a já conhecida – e tão falada – saga “Crepúsculo”, de Stephenie Meyer. Só vi o primeiro filme,  mas vá lá: dessa vez nada de elfos e anéis ou bruxos e escolas de magia ou armários ou bússolas. Trata-se de um mundo – o nosso? – em que existem vampiros e lobisomens. O ponto que interessa é o par romântico do filme: Bella, uma adolescente normal a não ser para o olfato de Edward, um vampiro. Vampiros normais vivem para sempre, humanos normais, não: um desencontro incontornável para o romance de nosso casal. Bella dá a solução que Edward, pelo jeito, temia: e se ela virasse uma vampira? Tem jeito? Tem: ele morde ela. Ela vira vampira. Ela vive para sempre. Só que ele não quer. Por quê? Eu não sei (quem sabe o medo do compromisso ou o medo do fim?), mas a questão que interessa está posta: um grande amor sobreviveria a eternidade?

(Atualização: Dona Otilia e Seo Antônio querem mostrar que, talvez, 80 anos.)

Vicissitudes

28/11/2009 por Luiz Eduardo

O que seria de “O cão andaluz” se Buñuel e Dalí não tivessem nada mais do que um aparelho de barbear com cinco lâminas paralelas e fita lubrificante? Keep it simple.

Sampa

28/11/2009 por Luiz Eduardo

São Paulo é uma cidade daquelas que te engolem pelas beiradas.

O palco

26/11/2009 por Luiz Eduardo

Pois a pequena queria fazer como ela: na ponta dos pés e com sorriso no rosto era a dona do mundo. Era sonho ou os moinhos eram de vento, que importava? Em casa, na ponta dos pés não alcançava nada.

Marcapasso

26/11/2009 por Luiz Eduardo

Porque entre o passo e o descompasso desse comboio de corda que rebola dentro da gente há uma distância que não passa e um tempo que não se pula: os desencontros.

O embrulho

22/11/2009 por Luiz Eduardo

Uma sucessão de dias acaba no fim de ano, sempre e mais uma vez, sem café da manhã e sem saber que já se acordou. Ou ainda, ou tanto faz, mas importa: todo mundo finge se importar. Tanto pior se o Natal chega em forma de elevador de serviço às seis e tanto da manhã, rumando abaixo, cavando e engolindo terra. Um dia após o outro se não fosse pela parada insuspeita: mais alguém usa o elevador de serviço às seis e tanto da manhã. Caixas e caixas vazias – e lá se vão as guirlandas, renas, luzinhas e bonecos a se espalhar cantando e dançando. Caixas e caixas vazias, e uma voz que diz – entre o constrangimento e o desperdício, a vontade e o desinteresse – que já é Natal e que isso é só metade do que ficou lá em cima: o Natal embalado em caixas vazias.